Uma análise junguiana do filme, como se fosse um sonho
Filmes nos movem de um jeito que não sabemos explicar direito. Você já assistiu a algo e saiu com aquela sensação de que foi tocado em algum lugar muito interno — e não consegue nomear onde nem por quê?
Jung diria: porque o inconsciente não fala em argumentos. Fala em imagens. Em símbolos. Em histórias. É exatamente assim que os sonhos funcionam. E o Encanto, filme que parece falar sobre uma família colombiana com poderes mágicos, é, na verdade, um sonho coletivo sobre o que acontece quando o trauma não é atravessado. Quando a dor vira estrutura. Quando o amor se transforma, sem que ninguém perceba, numa jaula.








No início de tudo, há uma fuga e uma morte. Pedro vai ao encontro dos perseguidores para proteger Alma e os filhos recém-nascidos, e não volta. No instante da perda, nasce o milagre: a vela se acende, a montanha se fecha, a Casita surge. Na linguagem junguiana, essa vela é o Self da família Madrigal, o centro organizador da psique, maior que o ego, anterior a ele. A família organiza a vida inteira em torno dela. A venera. Teme sua extinção. Mas há uma inversão silenciosa que o sonho revela: quando a vela vira objeto de culto em vez de fonte de vida, ela começa a perder força. O Self não se sustenta sendo controlado. Ele pulsa quando há autenticidade. Apaga quando há performance. Alma congelou o luto em regra, e a estrutura que deveria proteger o amor terminou por sufocar o amor.
Nos sonhos, a casa é um dos símbolos mais universais da psique. Jung descreveu: sonhar com uma casa é sonhar consigo mesmo. Cada cômodo é um aspecto interno. Cada porta fechada é algo que ainda não foi integrado. A Casita não é cenário, é personagem. E é a psique de Mirabel. Ela responde ao estado emocional dela, floresce quando ela está presente, racha quando ela nega o que sente, e cai quando a verdade não pode mais ser contida. Quando Mirabel assume que o poder está nela, a Casita fica de pé novamente. Isso não é magia. É individuação.
No filme, percebemos que cada dom é também uma prisão, não pelo dom em si, mas pelo que a família fez com ele. Os dons viraram identidades, e as identidades viraram grilhões dourados. Ninguém escolheu o seu. Eles chegaram numa cerimônia, diante de todos, sem negociação possível. E a partir dali, você é aquilo. Para sempre. Sua existência precisa ser justificada por uma habilidade.
Luísa carrega burros, pontes, a família inteira, e tem pavor de descansar, porque se ela para, quem vai segurar tudo? “Surface Pressure” é um dos retratos mais precisos de ansiedade e burnout já colocados numa animação: a força virou identidade, e sem a força, ela não sabe quem é. Isabela floresce flores perfeitas porque foi o que aprendeu a ter valor – até o momento em que, pela raiva, pela primeira emoção espontânea, faz um cacto. E ri. O cacto não é belo no sentido convencional. Mas é real. É resistente. É ela. Uma Afrodite na sombra não é feia: é vazia. E Dolores que ouve tudo? Os segredos, as rachaduras, Bruno nas paredes, desde sempre… e engole. Porque aprendeu que seu saber é inconveniente. Ela carrega a verdade de todos no corpo, sozinha, sem poder nomear. O que isso faz com alguém?
“We don’t talk about Bruno.” A canção mais famosa do filme é, talvez, o símbolo mais preciso de todo o roteiro: o que a família não fala é exatamente o que mais a define. Bruno é o arquétipo do Hefesto: o filho expulso porque envergonhava, porque dizia o que não devia. O rejeitado que ainda ama, que apesar disso, é ele quem continua remendando as rachaduras da Casita escondido, nas paredes, junto com os ratos. Banido, mas presente. Porque a sombra junguiana funciona exatamente assim: o que é reprimido não desaparece. Ele pressiona. E quanto mais a família performa normalidade, mais a Casita racha. Não é Bruno que causa as rachaduras. São as rachaduras que chamam por Bruno.
É nesse contexto que Mirabel faz sentido. Ela não tem dom visível ou performático e é exatamente por isso que é a única que consegue ver o que está rachando. Ela é arquétipo da Perséfone: desce ao submundo, entra no quarto de Bruno, na sombra da família, no que foi banido. É também a Hécate: transita entre todos os mundos internos sem ser capturada por nenhum deles. A que não cabe em lugar nenhum, é a única que pertence a todos. Quando ela tenta alertar a família, ninguém acredita e quase a comparam a Bruno. Porque a família já aprendeu: quem vê o que não deveria ver é louco. Ou perigoso. Ou os dois.
Como nos sonhos, ou nos filmes, nada é por acaso! A Borboleta amarela, tem referência na Grécia Antiga. Como? Naquele tempo, a palavra Psyche significa tanto “borboleta” quanto “alma”. A metamorfose é o símbolo da transformação da alma. A borboleta amarela que aparece no rio, o mesmo lugar onde Pedro morreu, é Psyche. É a alma dele retornando no momento em que Abuela finalmente para de fugir. Não como fantasma, mas como símbolo vivo de que o milagre nunca foi a vela. Foi o amor. E o amor não morreu no rio. Ele esperou ali até que ela tivesse coragem de voltar. É Mirabel quem a leva de volta a esse lugar, a Perséfone/Hécate que guia o retorno.
A Casita renasce. E não pela magia, mas pela integração. Isabela pode florescer o que quiser. Luísa pode descansar. Dolores consegue dançar. Bruno ocupa seu lugar na família, às claras. Alma aprende que o milagre era o amor, não a perfeição. O milagre é você. Não o dom. Não a performance. Não o que a foto oficial registra. Você: inteira, rachada e em jornada.
O Encanto estava te contando algo sobre você. Qual personagem você reconheceu? A que carrega demais e tem medo de parar? A que floresce o que esperam mas que murcha o que é genuinamente seu? A que sabe de tudo e engole? Ou a que foi mandada pra fora das paredes e continua remendando por amor?
A rachadura não é o problema. É o convite.
Onde está a sua rachadura? O que ela está tentando te mostrar que você ainda não teve coragem de olhar? 🌙
